
Marcelo Coutinho, professor doutor da UFRJ e especialista em indústria H2V
O ano começou realmente mais quente. Em janeiro, a temperatura média global chegou a +1,7°C acima do período pré-industrial, continuando a ultrapassar, assim, o limite de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris. Eventos climáticos extremos abalaram o mundo, das tempestades em São Paulo aos incêndios apocalípticos na Califórnia, passando pela maior nevasca americana de todos os tempos, entre muitos outros eventos nos demais continentes. Para se ter uma ideia da bagunça no clima, a Flórida teve mais neve que o Alaska, e três vezes maior que o pico anterior um século e meio atrás. As nevascas extremas e atípicas também são consequência do aquecimento global por causa da evaporação da água nos mares e lagos, e do superaquecimento no Ártico que promovem essas ondas de frio.
A temperatura também subiu na política internacional com a eleição de Trump, e aí começam as novidades do ano. O novo presidente americano retirou os EUA do Acordo de Paris e eliminou alguns incentivos públicos ao hidrogênio dados pelo governo anterior. No entanto, é importante frisar que Trump manteve a principal política de incentivo que são os 3 dólares para cada quilo de hidrogênio verde produzido no país. Ou seja, mudou, mas nem tanto. Além disso, depois de visitar os estragos na Califórnia, que classificou como uma grande bomba, deu sinais de que pode rever sua política energética e climática, voltando-se de novo para a transição energética, talvez até mais que Biden. A conferir.
Os EUA tomaram um grande susto com a disrupção tecnológica da DeepSeek e pode dar um cavalo de pau na política de incentivos às IAs, pois os chineses têm apresentado uma estratégica muito mais eficiente que a americana. O que a China está fazendo na indústria do hidrogênio verde é de tornar o evento da DeepSeek em coisa de criança. Está havendo na potência asiática uma verdadeira onda de investimentos no novo combustível e insumo industrial verde, com fábricas, eletrolisadores, veículos, gasodutos, armazéns e postos de abastecimento em cascata. Tudo isso coloca a China na liderança da nova revolução industrial no mundo, que tem no H2V uma das suas pedras angulares. Nesse sentido, os EUA estão ficando para trás, e Trump parece ter entendido isso. Ou o EUA correm para liderar a nova economia global de baixo carbono ou perderá sua hegemonia. Não há outra saída, a não ser que se considere o apocalipse total uma estratégia.
Uma eventual desglobalização decorrente da guerra comercial é ainda apenas uma hipótese, embora cada vez mais provável. Seja como for, o hidrogênio verde também leva vantagem com relação a isso por um motivo bastante objetivo: o H2V é descentralizado, de produção e comercialização sobretudo local, e elimina dependências geopolíticas no campo da energia, ou seja, o exato oposto do petróleo que tem visto seus preços caírem, ano a ano, nos últimos tempos e que se desenvolveu mais até aqui graças à globalização, desde os anos 1970, principalmente. Numa eventual desglobalização ou dificuldades no comércio global, o hidrogênio verde não seria impactado negativamente e seria até mesmo favorecido por suas características. A China e a Europa já compreenderam isso com toda a clareza.
O hidrogênio verde é absolutamente essencial para a Europa. O relatório Mario Draghi apresentado em janeiro à Comissão Europeia confirma isso mais uma vez. De todos os três maiores desafios europeus – tecnologia, descarbonização e geopolítica, o H2V é a peça central para superá-los porque não precisa importar gás natural, ainda mais da Rússia, pode competir em pé de igualdade no campo tecnológico, como, aliás, já vem acontecendo com os eletrolisadores, e viabiliza assim a transição para a economia de baixo carbono. O Reino Unido fechou sua última usina de carvão, um ícone da velha ordem industrial e caminha para ser a primeira potência nuclear a zerar suas emissões de carbono. Os países bálticos estão fazendo isso ainda mais velozmente. Países da União Europeia fecharam em janeiro dois acordos estratégicos. O primeiro com os países africanos mediterrâneos para o garantir o fornecimento de H2V por um gasoduto totalmente viável. O segundo acordo foi com a Arábia Saudita, em que a potência petroleira se compromete com abastecimento também de H2V para o velho continente, estendendo o gasoduto mediterrâneo até o Golfo Pérsico e com por navios que já estão sendo preparado para esse transporte.
Outra novidade deste ano foi a guinada da mineradora australiana Fortescue para a Malásia. O seu CEO deu sinais de que a companhia pode abandonar outros projetos de H2V, centrando-se onde é mais viável e próximo às rotas do minério de ferro, o que é bastante racional. O hidrogênio verde tem total viabilidade em regiões com abundância de água e, sobretudo, por onde se escoa a produção mineral. Isso reforça a tese da SL Energias de que a Vale escolherá como centro natural de abastecimento de H2V o estado do Maranhão, por onde passa a maior parte do minério de ferro que vai para o exterior, e ainda por cima de maior qualidade. A própria empresa já decidiu que fará da ferrovia um modelo de transição energética, e seu novo CEO disse em Davos e em outras entrevistas que o hidrogênio verde é absolutamente essencial para a empresa, e que estão mesmo muito animados com isso. O ferro verde e o aço verde são um dos principais trampolins do mercado de hidrogênio verde.
Há também muitas boas novidades no campo da aviação e navegação e de máquinas em geral, com destaque para o aumento dos investimentos das gigantes Airbus e Boeing em soluções de hidrogênio verde, e a primeira permissão para um motor de combustão de hidrogênio na Europa, fabricado pela JCB, que na prática significa que o novo motor poderá ser usado comercialmente em máquinas. Caiu, assim, a tese de que o uso do hidrogênio em motores de combustão não seria viável. Há um consenso na aviação de que o hidrogênio verde é a única forma de realmente descarbonizar o setor, sendo os combustíveis biológicos apenas de uso transitório e pequeno. O primeiro avião movido hidrogênio verde de médio porte deve ser comercializado até 2027, segundo todas as projeções mais importantes. Hoje modelos pequenos já foram suficientemente testados, e em alguns lugares já são usados regularmente. Já os aviões maiores devem migrar para o H2V até o início da próxima década. Em janeiro, a primeira turbina movida a hidrogênio líquido recebeu validação, o que significa que já pode ser aplicada em alguns modelos aéreos menores.
Por fim, merece ainda menção ao que japoneses e sul-coreanos estão fazendo em matéria de hidrogênio verde. Eles já vinham investindo bastante, porém, este ano as provisões de investimentos aumentaram muito. Os dois países estão criando uma rede bastante capilarizada de estações de abastecimento para caminhões, ônibus e carros, desafiando, dessa forma, a tese de que o hidrogênio verde seria utilizado apenas em veículos pesados como trens, aviões e navios. Há um ditado no mercado que diz que aquilo que o extremo oriente faz hoje, todo o mundo fará amanhã. Esse parece ser exatamente o caso do hidrogênio verde. Vale notar ainda que praticamente toda a indústria de carros de corrida já se decidiu pela transição para a gasolina sintética, que é feita com o H2V. Em 2025, boa parte das corridas abaixo da Fórmula 1 já adotarão a gasolina sintética em seus motores, em algumas modalidades 100%. A Fórmula 1 programou sua adoção para 2026. No Brasil, destaca-se o Paten, o PAC do hidrogênio verde, que foi sancionado em janeiro pelo Presidente Lula. Trata-se de mais um forte incentivo ao investimento em H2V no país, com um novo fundo multibilionário no BNDES com taxas muito baixas e sem a necessidade de garantias reais.